Dra. Cleide Sarkis
Psicóloga 05/04/2023

Um Grito de Ajuda: Quando Pedir Apoio é um Ato de Coragem

Imagem artística representando a busca e o pedido por ajuda psicológica

Pedir Ajuda é Atitude de Força

Pedir ajuda não é sinal de fraqueza: é inteligência emocional e coragem. Ainda assim, o estigma persiste. Ninguém se sente mal por ir ao médico com dor no peito; por que, então, a vergonha de procurar um psicólogo quando a dor é emocional?

A ideia de autonomia total em todas as áreas da vida ignora que a saúde mental segue a mesma lógica da física: o cuidado profissional existe porque sintomas existem.

O Tabu da Vulnerabilidade

Fomos ensinados a valorizar força, independência e controle. Admitir que não estamos bem soa como derrota — especialmente num país onde o “jeitinho” e a resiliência são celebrados.

A vulnerabilidade é o ponto de partida para o crescimento. Só mudamos o que reconhecemos. Sem nomear a dor, ela continua dirigindo a vida — de forma inconsciente.

O Olhar Sobre Saúde Mental Mudou

Nos anos 1960, John Lennon cantou “Help!” sobre alguém que achava não precisar de ninguém e com o tempo percebeu que precisava de apoio. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece hoje que a saúde mental é parte integrante da saúde geral. O caminho de normalização da terapia, porém, ainda tem obstáculos.

Por Que Negamos a Necessidade de Ajuda?

O Mito da Autossuficiência

“Dar conta de tudo” é o ideal vendido. Pedir ajuda parece admitir falha — quando, na prática, é o contrário: reconhecer a necessidade é assumir responsabilidade pelo próprio bem-estar.

Medo do Julgamento

O receio é ser visto como fraco, incompetente, louco. Quem quer bem provavelmente já percebeu que algo não vai bem e torce para que o apoio seja procurado.

Desconhecimento do Processo

Sem saber o que ocorre numa sessão, a pessoa imagina cenários: “vou ter que contar todos os segredos?”, “o terapeuta vai me julgar?”. Informar-se reduz a ansiedade.

Crenças Sobre Terapia

“Isto é para quem tem problemas graves”, “não vou conseguir falar de mim”, “terapia é coisa de rico”. Ideias a desconstruir: terapia é para quem quer se conhecer melhor e sofrer menos.

Sinais de que Você Pode Precisar de Ajuda

  • Sensação constante de sobrecarga
  • Emoções desproporcionais — chorar por coisas pequenas, explodir sem motivo aparente
  • Isolamento progressivo de amigos, familiares e atividades
  • Dificuldade de tomar decisões simples
  • Vazio persistente, mesmo com tudo “bem” na aparência
  • Queda de desempenho no trabalho ou nos estudos
  • Pensamentos frequentes de “não aguento mais”
  • Uso de álcool, remédios ou outras substâncias para o dia a dia
  • Sintomas físicos sem causa médica — dores, problemas de sono, fadiga
  • Perguntas recorrentes: “por que estou assim?”, “o que há de errado comigo?”

Vários desses sinais reunidos justificam buscar ajuda.

O Processo Terapêutico: O Que Esperar

Primeira Sessão

Na primeira consulta, você conta parte da sua história e o que o trouxe. O terapeuta ouve, pergunta e, juntos, estabelecem os objetivos do trabalho. É momento de avaliação e construção de vínculo — e você tem o direito de sentir se há sintonia.

Escuta e Compreensão

Terapia não é conselho nem receita pronta. É escuta qualificada, sem julgamento, que ajuda a identificar padrões repetitivos, compreender o significado dos sintomas, reconhecer emoções bloqueadas e entender como o passado influencia o presente.

Autoconhecimento

Com o tempo, a terapia permite reconhecer verdadeiros sentimentos e necessidades, estabelecer limites mais saudáveis, entender como você se relaciona consigo e com os outros, e desenvolver ferramentas para as dificuldades.

Benefícios de Pedir Ajuda

  • Alívio de ser simplesmente ouvido, sem interrupções
  • Clareza sobre as próprias emoções e seus gatilhos
  • Redução de ansiedade, insônia e irritabilidade
  • Relacionamentos melhores — presença e assertividade
  • Maior autoconhecimento e autoaceitação
  • Ferramentas para desafios futuros

Mitos que Precisam Cair

“Terapia é para loucos.” Terapia é para pessoas comuns com dificuldades — como ir ao médico com dor.

“Vou ter que falar da infância para sempre.” A infância importa para entender padrões atuais, mas o foco é o presente e o futuro. Falar do passado serve para compreender, não para se vitimizar.

“Terapia é demorada e cara.” Algumas questões se trabalham em poucas sessões; outras exigem mais. O investimento na saúde mental se paga em qualidade de vida.

“Preciso de um amigo, não de um terapeuta.” Amigos importam, mas têm limites. O terapeuta é treinado para escuta qualificada, neutralidade e intervenções baseadas em evidências.

Como Encontrar o Profissional Certo

  • Formação — psicólogo ou psiquiatra com formação reconhecida
  • Abordagem — psicanálise, TCC, humanista; veja qual faz sentido para você
  • Sintonia — sentir-se à vontade e respeitado
  • Localização e disponibilidade — presencial ou online, horários compatíveis

Muitos profissionais oferecem primeira consulta mais curta ou gratuita. Aproveite.

Superando o Medo de Marcar

  1. Normalize — milhares de pessoas fazem terapia
  2. Comece pequeno — uma sessão, sem compromisso de continuar
  3. Seja honesto — dizer que está com receio já é um bom começo
  4. Lembre do objetivo — o trabalho é pela sua qualidade de vida
  5. Não exija perfeição — terapia é sobre se permitir explorar

O Custo de Não Fazer Terapia

O foco costuma cair no custo financeiro. Vale medir o outro lado: oportunidades perdidas por medo, relacionamentos deteriorados por falta de autoconhecimento, tempo desperdiçado em sofrimento. O investimento se estende a todas as áreas da vida.

Onde Buscar Ajuda Emergencial

Em crise aguda, com pensamentos de autolesão ou sensação de não suportar mais, procure ajuda imediatamente:

  • CVV – Centro de Valorização da Vida: 188 (ligação gratuita e sigilosa, 24 horas)
  • CAPS mais próximo
  • Pronto-socorro hospitalar
  • Serviços de emergência: 192 (Samu) ou 190 (Polícia Militar)

Agendar uma consulta não é admitir derrota. É reconhecer que o próprio sofrimento merece atenção — e que existe um caminho mais leve. Começa reconhecendo a necessidade e pedindo ajuda.


Dra. Cleide Salem Sarkis Psicóloga e Psicanalista Há mais de 35 anos acompanhando pessoas em seu processo de autoconhecimento.*

Para continuar: veja os sinais de que você precisa de terapia ou entenda como a psicanálise trabalha o autoconhecimento.

Voltar para o blog
Compartilhar:
Posso te ajudar?